domingo, 14 de março de 2021

O PEDIR DO COMPRAR DO MATUTO

Por Junior Almeida

Um atendente de farmácia bom é meio que criptógrafo, pois consegue entender as famosas letras de médicos, também conhecidas como garrancho ou garrancheira. Alguns homens de branco mais modernos já prescrevem seus remédios através do computador, e só têm o trabalho de imprimir a receita, carimbar e assinar. Isso ajuda o vendedor da farmácia não vender medicamentos errados. Outros profissionais de vendas também têm que ser desenrolados para não perder o cliente quando o freguês usa um linguajar todo peculiar. 


E quando o vendedor é que tem um dialeto próprio? O comprador é que tem que entender, mas geralmente se não for do mesmo lugar de quem tá vendendo. Quer ver palavras diferentes das originais? Vá numa bodega ou feira no interior nordestino. Pra começar, marcas viram nomes de produtos, assim como uma cópia heliográfica é Xerox, uma lâmina de barbear é Gilete, mesmo que seja da marca Wilkson ou Bic. Para o matuto, mas daqueles matutos legítimos, todo desodorante é Mistral, toda cerveja é Brahma. Na venda se pede um “teco-teco”, também conhecido como comprimido Tetrex, leite querosene, primeiro ou segundo semestre, no lugar de Nestogeno, por que o querosene mesmo é chamado de gás, o gás branco, e o gás óleo, é o diesel, comprado na bomba do posto de gasolina.


A festa mesmo do palavreado é na feira livre, onde o freguês se ganha no grito. É comum os vendedores de frutas e verduras anunciarem “abacaxio”, “tomaquina”, e no açougue o “figo” e a “passarinha”, que é o baço do boi. Outro que fala sem parar e com isso de vez em sempre sai alguma palavra diferente é o famoso homem da cobra, que já virou sinônimo de tagarelice.


O doutor raiz, ou raizeiro, é outro que usa sua lábia pra vender e receitar seus remédios caseiros. Geralmente ele fica vendendo em um banco de madeira ou lona estendida no chão cheio de cascas de pau, sementes, flores desidratadas e garrafadas, que, segundo quem vende, serve pra tudo no mundo. Outro dia na mais que centenária feira livre de Capoeiras um sujeito anunciava aos gritos a milagrosa raiz de “manascada”. Curioso, perguntei pra que servia. O vendedor todo entendido disse que servia pra coica de mulé, que as afligia quando essas estavam de boio


Essa última parte eu entendi, me enrasquei mesmo com a tal da “manascada”. Só depois fui saber que era "noz moscada" o que ele vendia. Feira livre é uma festa, e não só aqui. Nas grandes cidades podemos até dizer que as feiras são mais civilizadas, com um pouco mais de organização e higiene, mas na essência todas são iguais.


Em 1995 estava eu em São Paulo e, com um amigo fui numa feira, frequentada em sua maioria por nordestinos. Antes de chegar ao local, fiquei curioso com o que veria de diferente das feiras do Nordeste. Sabe o que eu vi? Nada, nadinha da silva. Tinha gente gritando de tudo quanto é lado, gente vendendo agulhas de mão e de máquina enfiadas numa bucha de lavar pratos, vendedor de agulha de desentupir fogão, outro com uma enorme vara vendendo elásticos das mais variadas larguras, outro com várias cartelas de fichas telefônicas, vendedores de água, refrigerante, cadeados, lanches e de tudo mais que se possa imaginar. 


A diferença mesmo que eu pude observar, é que nas nossas feiras, de vez em quando se escuta um “pega ladrão”, enquanto em São Paulo, além de escutar isso, o mais comum é escutar alguém gritando que lá vem o “rapa”. É um Deus nos acuda. 


Ao sair dessa feira cruzamos com dois rapazes de mãos dadas, homossexuais, que  mesmo à distância podia se notar. Um deles colocou a mão na frente da testa, como se estivesse encandeado ou mirasse alguma coisa, deu uma risada debochada jogando o cabelo de lado, e comentou que "naquela feira devia estar cheio de alemães lindos de olhos azuis". 


Observei as palavras preconceituosas do rapaz, e pensei comigo: tem gente que é podre mesmo. Quantas vezes aquela criatura não deve ter sido discriminado por sua opção sexual, para naquele momento estar discriminando trabalhadores por serem nordestinos? Quanta xenofobia! Pensei. Me contive e fiquei calado.



Toda sexta feira é dia de feira da minha cidade, Capoeiras, feira essa que acontece desde 1902. É local de encontro dos amigos nos bares e bodegas da rua, dia de marcar jogos dos times dos sítios, dia de vender o queijo, a galinha, o boi, o porco, o bode, a fava, o feijão, a farinha e o milho. Dia de se abastecer e voltar pra sua lida diária, para com oito dias fazer tudo de novo. E VIVA A FEIRA!


*Foto do centro de Capoeiras a partir da Matriz de São José.

 

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